Os Produtores Norte-Americanos Devem se Preocupar com a Queda das Moedas Agrícolas?

A Argentina caiu novamente numa crise financeira. O peso argentino caiu 23% em relação ao dólar dos EUA neste ano. O banco central aumentou as taxas de juros para 40% no combate à fuga de capitais. As moedas dos maiores exportadores agrícolas também estão sofrendo. O real brasileiro caiu 15% desde 23 de janeiro enquanto o rublo russo recuou 10% no mesmo período (Figura 1).

A grívnia ucraniana, entretanto, segurou a onda, mas pode sofrer uma desvalorização a qualquer momento. Fora esses principais exportadores agrícolas, outros países como a Turquia também estão experimentando fortes quedas no valor de suas moedas. No entanto, até agora, os preços do milho, soja e trigo reagiram com um bocejo. Os produtores agrícolas norte-americanos deveriam estar nervosos?

Figura 1: Outra Crise de Moeda de Mercados Emergentes?

Numa base diária, os preços das principais safras de commodities como o milho, a soja e o trigo mostram quase nenhuma correlação com os movimentos diários dos valores das moedas dos países produtores agrícolas em relação ao dólar dos EUA. Por exemplo, desde 2011, as variações diárias do real brasileiro tiveram correlação de 0,12 com os movimentos dos preços do milho. Os movimentos diários do rublo russo tiveram correlação de apenas 0,05 com os movimentos diários do trigo duro vermelho de inverno. Isso significa que não há nada para os produtores rurais norte-americanos se preocuparem quanto ao valor destas moedas continuar caindo?

Não necessariamente. Enquanto a correlação diária entre as variações nos valores destas moedas e as variações nos preços de bens agrícolas é fraca, há uma forte correlação entre os níveis globais dos preços de bens agrícolas e o nível geral das moedas dos principais exportadores agrícolas. Isso é visível na relação entre o preço do trigo e o nível do rublo, e entre o preço do milho e da soja e o nível do real (Figuras 2, 3 e 4). 

Figura 2: Um Rublo Fraco = Um Longo e Frio Inverno para o Trigo.

Figura 3: Quando o Sol se Põe para o Real, geralmente Também se Põe para o Milho.

Figura 4: Um Real Mais Fraco é, geralmente, Má Notícia para os Preços da Soja.

Enquanto os movimentos da moeda têm pouca influência de curto prazo sobre os preços dos bens agrícolas, causam impacto no custo da produção em períodos mais longos, o que representa meses e anos. Uma queda na moeda de um país imediatamente baixa seu custo relativo de mão de obra. Isso também reduz o custo de impostos territoriais, empréstimos e outros itens denominados em moeda local. Enquanto uma desvalorização de moeda não isola os produtores rurais de fatores globais que determinam (ou, ao menos, influenciam) os preços como o custo de equipamentos rurais, fertilizantes e energia, os custos determinados puramente em nível local, provavelmente, representam metade dos custos de uma fazenda em funcionamento. Para tanto, a queda na moeda local aumenta a competitividade dos produtores domésticos.

Durante mercados de commodities em baixa, geralmente, os preços caem ao nível do custo da produção. Esta é a maneira como o mercado agita os produtores ineficientes, dispendiosos, reduzindo o nível do estoque e trazendo de volta o equilíbrio aos mercados – um processo extremamente doloroso para os produtores, com certeza. O impacto que as moedas de mercados emergentes mais fracas pode ter no longo prazo é o de redução do limite (ou piso) a que os preços de bens agrícolas podem cair no mercado baixista. Os produtores agrícolas em lugares como a Argentina, Brasil e Rússia, onde as moedas estão se enfraquecendo, serão, parcialmente ou na maioria, isolados destes efeitos negativos. Os produtores em locais como os Estados Unidos, cuja moeda está sendo elevada por aumentos agressivos na taxa de juros pelo Federal Reserve dos EUA, não serão.

Visão Geral do Dólar

Como nós destacamos em outro relatório referente àhttp://www.cmegroup.com/education/featured-reports/euro-dollar-caught-in-a-fiscal-monetary-tug-of-war.htmltaxa de câmbio do dólar-euro, a moeda dos EUA está num cabo de guerra entre o aperto na política monetária, que está puxando a alta do dólar, e uma situação fiscal em deterioração que o está levando para baixo. Com a reforma tributária e a legislação de gastos definidas no momento, os mercados têm focado mais na política monetária que ainda está maleável e a critério do Federal Reserve dos EUA (Fed) que, sabiamente ou não, parece determinado em apertar substancialmente mais a política.

Os ciclos passados de apertos da política pelo Fed podem ter tido o papel de desencadeadores de crises em mercados emergentes.  O mais famoso, o ciclo de aperto de 1979-81, quase certamente ajudou a desencadear a crise de dívida de uma década na América Latina durante os anos 1980. Na sequência do Fed ter dobrado a taxa básica de juros em 1994, o peso mexicano entrou em colapso. Uma pequena alta da taxa pelo Fed, em março de 1997, combinada com altas acumuladas da taxa em 1994, podem ter ajudado a desencadear a crise financeira da Ásia de 1997-98 e a moratória da dívida russa, em 1998. As crises das moedas argentina e turca ocorreram em 12 meses após o fim do ciclo de aperto do Fed de 1999-2000.

Durante o período das taxas perto de zero de dezembro de 2008 a dezembro de 2015, o mundo ficou acostumado ao financiamento barato dos Estados Unidos. Uma alta da taxa em 2015 e outra em 2016 não mudaram muito esta imagem. Entretanto, as três altas do ano passado mais uma, até agora, em 2018 (e muitas mais esperadas) estão mudando a imagem de financiamento. Se o Fed elevar conforme esperado em junho, o custo do financiamento pelos EUA passará de 0,125%, de poucos anos atrás, para perto de 2%.

É muito cedo para considerar uma crise generalizada de moedas de mercados emergentes como a dos anos 1980 ou 1990. Dito isso, se esta situação se materializar, pode ser má notícia para os produtores rurais dos EUA, cujos bens podem, de repente, tornar-se muito mais caros para compradores estrangeiros, e seus competidores estrangeiros poderiam ganhar uma vantagem de custo substancial por meio de ajustes monetários.

Inflação Comparativa

A boa notícia para os produtores norte-americanos é que a inflação na Argentina, Brasil e Rússia é muito maior que nos EUA, e isso pode gerar alguma pressão de alta sobre os salários nestes mercados que, por sua vez, poderia compensar alguns benefícios agrícolas de uma moeda mais fraca. Por exemplo, o real brasileiro e o rublo russo não parecem tão baixos em relação ao dólar dos EUA quando ajustados para o impacto cumulativo da inflação diferencial entre as duas moedas. Aqui, nós usamos a taxa de juros diferencial incorporada aos contratos futuros rolados contra os preços à vista como medida para a inflação diferencial cumulativa (Figuras 5 e 6).

Figura 5: Corrigido pela Inflação, o Rublo não Caiu tanto quanto as Taxas de Câmbio à Vista.

Figura 6: Taxa de Inflação Maior no Brasil traz Desvantagens a seus Produtores em Relação aos Produtores dos EUA.

Mas as moedas têm caído há muito tempo em relação ao dólar dos EUA, mesmo após terem sido corrigidas pela inflação, em favor de seus produtores domésticos e em desvantagem aos produtores dos EUA. Dito isso, as taxas maiores de inflação amortecem alguns destes efeitos.

Mercados de Opções

No momento, os mercados de opções estão precificando muito mais riscos de alta para os preços da safra do que riscos de baixa. Aparentemente, os operadores estão mais preocupados com a redução de estoques e o potencial para colheitas mais pobres do que com a crise incipiente nos mercados emergentes e as possíveis consequências baixistas para os preços da safra. Há duas interpretações possíveis para este fenômeno:

  1. Os operadores de opções estão amplamente corretos sobre os riscos de alta para os preços excederem os riscos de baixa.
  2. As opções de venda (put) 'fora do dinheiro' (OTM, na sigla em inglês) sobre o milho, soja e trigo são negociadas baratas se os riscos de alta ou de baixa estão mais uniformemente equilibrados.

O grau de distorção nos mercados de opções é notável. A partir de 23 de maio, alguns casos de opções de compra OTM (calls) negociadas por 40-50% a mais que opções de venda (puts) OTM similares entre as principais safras de commodities (Figuras 7, 8 e 9). Enquanto é possível que esta precificação reflita a verdadeira distribuição dos riscos, aqueles que esperam ver riscos de alta de preço tiveram maior esperança de que não há crise generalizada de moeda de mercado emergente pela frente. A última vez em que houve problemas generalizados durante as crises asiáticas e russa de 1997-98, os preços do milho, soja e trigo caíram 35-40%. A situação global é muito diferente desta vez mas, no mínimo, moedas mais fracas na Argentina, Brasil e Rússia poderiam baixar o piso para o qual os preços das safras eventualmente cairiam, no caso de um mercado baixista renovado.

Figura 7: As Opções sobre Milho Tiveram Inclinação no Fechamento do Mercado em 23 de maio.

Figura 8: A Volatilidade da Opção sobre Soja Teve Inclinação no Fechamento do Mercado em 23 de maio.

Figura 9: A Opção sobre Trigo Duro Vermelho de Inverno Teve Inclinação no Fechamento do Mercado em 23 de maio.


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Sobre o autor

Erik Norland é Diretor Executivo e Economista Sênior do CME Group. Ele é responsável pela elaboração de análises econômicas sobre os mercados financeiros globais, identificando tendências emergentes, avaliando fatores econômicos e projetando seu impacto no CME Group e na estratégia de negócios da empresa e daqueles que negociam em seus diversos mercados. Ele também é um dos porta-vozes do CME Group sobre condições econômicas, financeiras e geopolíticas globais.

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