China & Brasil: Moedas em Caminhos Divergentes?

Enquanto a guerra comercial EUA-México-Canadá foi resolvida com a renomeação do NAFTA para USMCA, a guerra comercial EUA-China parece entrar numa fase de piora.  Ao mesmo tempo, as eleições presidenciais no Brasil ofereceram uma mudança importante de liderança que pode levar a reformas políticas e financeiras. E, o Brasil é um beneficiário da China redirecionando copras de soja e outros produtos fora dos EUA.  O resultado líquido sugere que o real brasileiro pode ganhar terreno contra o dólar dos EUA nos próximos meses enquanto o yuan chinês pode desafiar níveis de resistência e permanecer num caminho de enfraquecimento.

Yuan chinês

Durante o período de 2015-2016 quando as exportações caíram, o yuan chinês enfraqueceu para CNY 7,00 por USD, antes de fazer rally contrário para CNY 6,30 por USD à medida em que o crescimento global se sincronizou com um desenvolvimento positivo que re-estimularam as exportações chinesas.  A guerra comercial EUA-China reverteu o caminho da moeda novamente e levou a fraqueza significativa em relação ao dólar dos EUA.  A próxima etapa da guerra comercial entre EUA-China pode se direcionar para uma nova fase.  Há uma possibilidade distinta na primavera de 2019 de que o Departamento do Tesouro dos EUA pode declarar a China como um manipulador de moeda, sugerindo mais tarifas e penalidades por parte dos EUA.

O rótulo de manipulador de moeda vem com alguns testes quantitativos.   "O Tesouro dos EUA estabeleceu limites para três critérios a seguir: (1) um superavit comercial bilateral significativo com os Estados Unidos como um com, ao menos, US$ 20 bilhões; (2) um superavit material de conta corrente com, ao menos, 3 porcento do Produto Interno Bruto (PIB); e (3) intervenção persistente e de um lado que ocorre quando as compras líquidas de moeda estrangeira são conduzidas repetidamente e totalizam, ao menos, 2 porcento do PIB da economia acima do período de 12 meses." (do Relatório do Congresso: Políticas de Câmbio e Macroeconomia dos Principais Parceiros de Comércio dos Estados Unidos, Outubro de 2018.)  Sob estes três critérios, muitos outros países estão muito à frente da China nos sorteios de manipulação de moeda.  O que pode ser diferente na primavera de 2019 quando o Departamento do Tesouro conduzir sua próxima revisão semestral de moeda é que o Secretário do Tesouro dos EUA, Steven Mnuchin, pode mudar o critério para poder ter a resposta que o governo dos EUA quer.

Ao contrário do Departamento do Tesouro, nossa própria análise da gestão de atividade de moeda parece boa além dos deficits de comércio e de conta corrente e leva em conta o fluxo de capital.  Os fluxos de capital afundam os fluxos de comércio, e eles são os determinantes mais poderosos de taxas de câmbio do que fluxos de mercadorias e serviços em uma magnitude de 10:1 ou até maior.  E, como o Departamento do Tesouro dos EUA, olhamos as práticas de gestão de moeda.  O melhor indicador de políticas de gestão de moeda é o padrão de acumulação ou redução das reservas internacionais, especialmente de títulos do Tesouro dos EUA.  Os países experimentam pressão de alta sobre suas moedas frequentemente veem nisso uma oportunidade de usar suas próprias moedas para comprar títulos do Tesouro dos EUA e outros ativos estrangeiros.  Os países que experimentam pressão de baixa sobre suas moedas podem escolher gastar parte de suas reservas internacionais para comprar de volta sua própria moeda. 

Nossa análise sobre as reservas internacionais chinesas sugere que a China vem tentando diminuir a volatilidade, mas não interveio na extensão exigida para prevenir a depreciação.  Na verdade, não está claro que uma intervenção agressiva de FX iria mudar o caminho recente de depreciação, dados os fundamentos econômicos.  A China tem estimulado o consumo doméstico expandindo novos empréstimos à economia, o que equivale à flexibilização monetária, e esta política acomodatícia teria feito a intervenção FX contraproducente para seus objetivos de gestão do crescimento econômico.

Enquanto a moeda da China e o mercado de ações foram impactados negativamente pela guerra comercial dos EUA, o governo tem sido capaz de administrar o crescimento econômico, bem como desloca a compra de importados, especialmente de produtos agrícolas, para produtores de fora dos EUA.  Ambos EUA e China estão cavando uma guerra comercial bem longa.  Se o yuan chinês romper a linha de CNY 7,00, há a possibilidade de movimentos posteriores para CNY 8,00.  Para a China, 8 é um número muito mais sortudo que 7. Lembrem-se que, de 1994 até o início de 2006, o yuan chinês foi fixado acima de CNY 8 por USD.  Já esteve lá antes.

Real Brasileiro

O primeiro turno das eleições no Brasil em 7 de outubro foi um divisor de águas.  Jair Bolsonaro não venceu com ampla maioria dos votos, mas ficou bem perto de 46% e, então, assegurou a presidência com o voto de 28 de outubro, após uma campanha muito polarizada no país.

Além disso, houve uma mudança importante na configuração do Senado e da Câmara dos Deputados que sugere que o novo presidente terá muito mais sucesso de que suas políticas de reforma financeira tornem-se leis do que foi previsto antes do primeiro turno das eleições.  O partido de Bolsonaro elegeu um número considerável de novos congressistas com orientação fiscal, tornando-os o segundo maior partido agora no Congresso.  A nova Câmara dos Deputados irá compor o maior número de partidos desde que a "redemocratização" do Brasil começou em meados dos anos 1980 após o governo militar. Se Bolsonaro pode trabalhar com os representantes de centro do Congresso para alcançar compromissos razoáveis, então as reformas são possíveis.  Assim, esperamos alguma ação modesta em 2019 para cortar gastos discricionários e consolidar alguns ministérios. Analistas estimam que o ajuste fiscal necessário para o Brasil é de, aproximadamente, 4-5% do PIB do país, destacando a importância de passar as reformas e levar a economia de volta ao crescimento. Deverá haver também ações para acelerar as privatizações.  Os planos de Bolsonaro para vender algumas das companhias estatais enquanto mantém aquelas estratégicas para o país, ao que ele quer dizer a Petrobras etc. A reforma da previdência será a tarefa mais difícil, e onde difíceis compromissos serão necessários para aprovar a legislação.

Além das melhoras das perspectivas de reforma do orçamento, o Brasil é o maior beneficiário da guerra comercial de EUA-China.  Depois que os EUA dispararam seus primeiros tiros com as tarifas sobre as mercadorias chinesas, a China retaliou com tarifas sobre as exportações dos EUA, tais como a soja, e redirecionou as compras de petróleo e soja para fora dos EUA.  Os fazendeiros brasileiros têm visto exportações de soja mostrarem percentuais de dois dígitos acima dos anos anteriores.   É certamente possível que os produtores brasileiros possam levar a guerra comercial em conta e mudar seus planos relativos a quantos hectares de soja plantar no ano que vem – aumentando potencialmente a produção e as exportações para consolidar as relações com a China.

Assim, mesmo que a guerra comercial dos EUA-China seja resolvida logo, o que não é provável, muitos países que já recebem as táticas agressivas de tarifas dos EUA podem bem decidir por uma diversificação mais permanente de seu fluxo de comércio, o que é importante para a segurança econômica de longo prazo.  Pense nesta abordagem como uma estratégia a mais dos EUA, onde é bom ter os EUA como um importante parceiro comercial, mas não depende somente dos EUA e desenvolver outros mercados de importação e exportação fora dos EUA.  Resumindo, a guerra comercial dos EUA pode ter mudado permanentemente alguma fatia de mercado para as exportações agrícolas fora dos EUA e para a América Latina.

O ponto de partida para a moeda brasileira é que as melhores perspectivas para a reforma fiscal junto com o aumento das exportações agrícolas podem oferecer pressão de mercado para a apreciação da moeda.  Por sua vez, uma pressão de alta sobre a moeda dá ao banco central o ambiente para aliviar as taxas significativamente como uma maneira de compensar algumas das potenciais reformas fiscais.  Tudo isso dá ao Brasil uma excelente oportunidade de embarcar em um período de crescimento econômico que poderia tornar as reformas fiscais muito mais fáceis de implementação.


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Sobre o autor

Bluford "Blu" Putnam atua como Diretor Geral e Economista-chefe do CME Group desde maio de 2011. Com mais de 35 anos de experiência na indústria de serviços financeiros e foco em bancos centrais, estudos de investimento e gestão de carteiras, Blu é porta-voz do CME Group sobre condições econômicas globais.

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Sobre o autor

Paula Attie é Diretora de Desenvolvimento de Negócios Internacionais do CME Group no Brasil e tem mestrado em Economia e Desenvolvimento Econômico.

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