Por que o Crescimento do Salário e da Produtividade está Lento?

  • 30 Aug 2017
  • By Natalie Denby and Bluford Putnam

Apesar de um mercado de trabalho apertado, o crescimento salarial e da produtividade permanece baixo nos EUA. O crescimento dos salários permaneceu em apenas 2,5% em julho de 2017, em linha com desempenho pós-recessão. O crescimento da produtividade do trabalho foi, em média, de apenas 1,1% entre 2007 e 2016. Entre 1995 e 2007, em contrapartida, a taxa média de crescimento foi de 2,5%. Embora fatores cíclicos possam ser parcialmente responsáveis, existem várias características estruturais chave da economia dos EUA contribuindo para o crescimento reduzido. O crescimento salarial e da produtividade está sendo retido por expectativas de inflação persistentemente baixas, demografia da força de trabalho e mudança da distribuição de folhas de pagamento na economia em favor de setores de baixos salários.

A ata do encontro do comitê do FED, o Federal Open Markets Committee’s (FOMC, na sigla em inglês) de 25-26 de julho ressaltou sua preocupação com dados salariais e de produtividade. O comitê observou que havia "aperto no mercado de trabalho, mas.... pouca evidência de pressões salariais." Alguns integrantes do FOMC especularam se a "contratação de trabalhadores menos experientes com salários mais baixos" foi um fator responsável. Outros apontam que o crescimento dos salários baixos esteja em linha com o que crescimento da produtividade e taxa de inflação (ambos lentos recentemente) iriam sugerir. Na verdade, a preocupação do Federal Reserve com o crescimento dos salários e da produtividade é susceptível a ser um fator importante no debate sobre o "timing" e o término das altas na taxa de juros no futuro – discutindo sobre altas em separado mais distantes e menores, e talvez um ponto de término na faixa entre 1,50% e 1,75% para os "federal funds".

A inquietação do FOMC com o crescimento do salário e da produtividade é quase único.  Analistas e acadêmicos em concordância avançaram em uma série de teorias para explicar os números baixos.  Os suspeitos favoritos incluem persistente fraqueza no mercado de trabalho não capturada pela taxa de desemprego não ajustada; rigidez da baixa dos salários nominais; problemas na medição de dados, particularmente em serviços e setores relacionados à tecnologia; uma escassez no aumento da produtividade; avanços tecnológicos; uma desaceleração no crescimento do capital; e a deterioração da qualidade da educação pública.

Embora muitos desses fatores possam desempenhar o papel de limitar o crescimento dos salários e da produtividade, a economia dos EUA também sofreu várias alterações estruturais: 1) persistente baixa expectativa de inflação, 2) mudanças na demografia da força de trabalho, como a saída da força de trabalho dos Baby Boomers e a entrada da força de trabalho dos Millennials, e 3) mudança na distribuição das folhas de pagamento pela indústria, favorecendo setores de baixo-salário. Nossa visão é que mudanças estruturais são responsáveis pelo modesto crescimento dos salários e da produtividade na expansão econômica após a grande recessão de 2008-2009. Por implicação, não há nada que o Federal Reserve possa fazer com a política monetária visando mudanças estruturais relacionadas à demografia e à mudanças na distribuição dos trabalhos entre os setores.

Expectativas de Inflação Baixa

Devido à inflação (juntamente com o crescimento da produtividade) ser um componente-chave no crescimento dos salários, as expectativas de inflação desempenham um papel importante na determinação do crescimento dos salários.  Medidas pela University of Michigan, as expectativas de inflação têm caído acentuadamente após um pico de mais de 10% em 1980.

Gráfico 1:

As expectativas de inflação aumentaram no início da recuperação econômica desde a Grande Recessão, atingindo 4,6% em março de 2011 – quando um consenso antecipou uma recuperação rápida.  Estas projeções provaram estar incorretas; o PIB real da economia cresceu a um ritmo constante, mas modesto, de 2%.  As pressões inflacionárias têm estado, em grande parte, ausentes.  À medida que as primeiras projeções foram gradualmente revistas, as expectativas de inflação caíram, chegando a 2,6% em julho; ainda acima da recente tendência abaixo de 2% da inflação.  O declínio pós 2011 nas expectativas de inflação pode ter retido subsequente crescimento salarial.  Empregados e empregadores, cada vez mais, esperaram inflação mais baixa – e com isso, menores aumentos.

Mudanças Demográficas

Como as expectativas de inflação diminuíram, a composição da força de trabalho dos EUA também passou por mudanças significativas.  Os EUA têm três principais gerações de idade economicamente ativa: Baby Boomers (nascidos pós-Segunda Guerra Mundial até 1965, de acordo com o Pew Research Center), Geração X (1965-1980) e os Millennials (1981-1997).  Os Boomers compreendem uma geração incomumente grande, com 76 milhões de nascidos entre 1946 e 1965, em comparação com 55 milhões da Geração X e 65 milhões dos Millennials.  As fileiras dos Boomers, entretanto, começaram a cair nos últimos anos, à medida que a mortalidade superou a imigração.  Em 2015, a Pew descobriu que os Millennials tinham ultrapassado os Boomers para tornarem-se a maior geração, com 75,4 milhões de Millennials, 74,9 milhões de Boomers e 66 milhões de integrantes da Geração X.

Esta distribuição geracional está mudando a força de trabalho.  Nos últimos anos, a parcela grande e em envelhecimento de Boomers viu um número maior de aposentadorias.  Os Millennials, por outro lado, ainda estão entrando na força de trabalho.

As ramificações para o crescimento da produtividade e dos salários são significativas.  Os Boomers são mais propensos a ser trabalhadores de salários elevados, com alta-experiência.  Sua aposentadoria da força de trabalho é um elemento crítico no crescimento dos salários e da produtividade.  Os novos participantes da força de trabalho, os Millennials, têm menos experiência e ganham salários mais baixos.  Sua entrada para a força de trabalho tem o mesmo efeito que a saída dos Boomers – o crescimento salarial e de produtividade é levado para baixo.

A representação gráfica de parte da população dos EUA acima de 65 anos revela uma alta pós-recessão das aposentadorias.  Há um aumento claro e dramático da população acima de 65 anos, com alta depois de 2007, à medida que a era da aposentadoria dos Baby Boomers é iniciada.  A população em idade de aposentadoria aumentou de 12,6% do total da população em 2007 para 15,6% hoje, e continuará a aumentar até a década de 2030.

Gráfico 2:

Gráfico 3:

A composição geracional da população economicamente ativa também pode ser medida por si só (a população em idade ativa é definida aqui entre os 25-64 anos).

O segmento mais velho da força de trabalho (50-64 anos) aumentou como uma parcela da população economicamente ativa entre 1992 e 2015, passando de 25,19% para 37,45% antes de cair ligeiramente para 37,2%, em 2017, à medida que os trabalhadores mais velhos se aposentaram.  O segmento mais jovem da população economicamente ativa (25-39 anos) aumentou para 39% de uma baixa de 37,16%, em 2011.  Como parcela da força de trabalho, os Millennials mais jovens vêm à tona, enquanto os Boomers mais velhos estão aposentando-se gradualmente.

O segmento da população entre 25 e 29 anos, que oferece um retrato dos trabalhadores muito jovens, também aumentou para 13,72%, em 2017, de 12,33% em 2003, revertendo uma queda que durou de meados de 1980 até 2000.  A parcela entre 55-64 anos de idade, que fornece uma métrica dos trabalhadores mais velhos perto da aposentadoria, nivelou-se em torno de 24,66% e, em breve, irá diminuir.

Gráfico 4:

Gráfico 5:

O resultado destas mudanças demográficas é uma força de trabalho que recebe um número crescente de jovens trabalhadores, enquanto perde um número crescente de mais velhos.  Esta mudança geracional está retardando o crescimento salarial e da produtividade.

Mudanças no Setor

Os EUA também estão passando por uma mudança nas distribuições de folhas de pagamento.  Muito tem sido feito na transição para uma economia com base em serviços – conta de serviços em 70% do total das folhas de pagamento não-agrícolas hoje, comparada com 55% em 1980.  A Atividade Industrial, entretanto, caiu de 20% da folha de pagamento não-agrícola em 1980 para 8% hoje.

Gráfico 6:

Três setores de serviços beneficiaram-se tremendamente com a mudança para uma economia com base em serviços: educação e saúde, profissional e negócios, além de lazer e hotelaria.  Estes setores têm crescido rapidamente no percentual total da folha de pagamento não-agrícola, representando 41% do total das folhas de pagamento não-agrícolas, em 2017, acima dos 37% antes da recessão e de 24% em 1980.  O maior setor de serviços (comércio, transporte e utilitários) perdeu algum terreno como parcela das folhas de pagamento, enquanto ainda acrescenta um número considerável de postos de trabalho; governo, por outro lado, caiu vertiginosamente após a grande recessão, à medida em que o Estado e autoridades locais cortaram agressivamente empregos no período entre 2010-2013.

Estas mudanças são significativas no apertado mercado de trabalho de hoje.  Até agora, os Estados Unidos adicionaram mais de 1 milhão de empregos neste ano, com 2 milhões acrescidos em 2016.  No total, quase 15,6 milhões de empregos foram adicionados ao total de folhas de pagamento não-agrícolas desde o fim da recessão em junho de 2009. Se a alocação das folhas de pagamento está mudando à medida em que o mercado de trabalho continua a adicionar postos de trabalho em um ritmo vertiginoso, o crescimento dos salários e da produtividade pode ser afetado.

Gráfico 7:

A expansão da massa salarial pós-recessão beneficiou, principalmente, os setores de serviços privados de salários baixos.  Estes incluem lazer e hotelaria; comércio, transporte e serviços públicos; e serviços de educação e saúde.  Apenas um setor de salários altos viu considerável expansão – serviços profissionais e empresariais.  O crescimento dos baixos salários ultrapassou ligeiramente o crescimento dos altos salários; mas o crescimento em ambos os setores de alto e baixo salários já ultrapassou o de setores de salários intermediários.  Estas tendências de expansão também podem estar contribuindo para o lento crescimento salarial e da produtividade.

O setor do governo é excluído aqui porque dados de ganhos por hora não estão disponíveis.  No entanto, o setor do governo contraiu-se consideravelmente durante a recuperação (perdendo 850.000 empregos nos primeiros dias da recuperação e recuperando-se apenas parcialmente).  Este setor tem, geralmente, salários mais elevados com excelentes benefícios; sua contração teve um impacto negativo sobre o crescimento dos salários e da produtividade.

No total, os três setores privados com baixos salários (lazer e hotelaria; comércio, transporte e utilitários; e outros serviços) contribuíram com 37% do crescimento de postos de trabalho não-agrícolas no período pós-recessão.  Todos esses empregos pagam abaixo da média de "todos os funcionários"; sua expansão prejudica o crescimento dos salários.  Com serviços de educação e saúde adicionados (o quarto setor de menor salário, em torno da média dos salários), os quatro setores de salários mais baixos respondem por 60% de crescimento de empregos pós-recessão.

Os três setores com salários mais elevados (atividades financeiras, mineração e exploração madeireira, e serviços de informação) adicionaram apenas 3,7% ao crescimento de empregos pós-recessão.  Com o quarto setor de maiores salários (serviços profissionais e empresariais), o levantamento sobe para 31%.  A expansão nestes setores, em que todos pagam acima da média, tem contribuído para o crescimento dos salários.

Os dois setores de salários intermediários (indústria e construção, ambos com salários acima da média) adicionaram apenas 10% à expansão de empregos pós-recessão.

Esta expansão pós-recessão pinta o retrato de um mercado trabalho cada vez mais polarizado, com postos de trabalho, em grande parte, indo para setores de baixa e alta remuneração.  A expansão em setores de baixa remuneração supera ligeiramente a de setores de alta remuneração; no entanto, até agora, ambos ultrapassaram os setores de remuneração intermediária.

Gráfico 8:

A polarização dos salários pode ser observada pela representação gráfica das parcelas dos pagamentos privados não-agrícolas alocadas para os quatro setores superiores, quatro setores inferiores e os dois setores de salários intermediários.  O crescimento dos quatro setores de salário mais baixo ultrapassou o crescimento dos quatro de salários mais elevados.  A distância entre os dois fica em 27%, acima de 21% em 1980 e 25% no início da recessão.  Os setores de salários intermediários, entretanto, caíram, estabilizando-se em cerca de 15,6%, após a recessão.  Este padrão de expansão da massa salarial pode representar um obstáculo ao forte crescimento salarial e da produtividade.

Implicações para a Política

As mudanças estruturais da economia dos EUA indicam que o menor crescimento da produtividade e dos salários poderia durar algum tempo.  Em primeiro lugar, as expectativas de inflação em queda podem indicar decisões de aumento no local de trabalho, até que a inflação observada suba acima de 2% e acelere em alguns trimestres.  Um aumento material na inflação medida não está incluído no nosso panorama econômico de 2017-2018.   Em segundo lugar, os efeitos duplos da aposentadoria dos Boomers e dos novos trabalhadores Millennials vão deixar os EUA com uma força de trabalho ligeiramente mais jovem, ligeiramente menos experiente e com salários mais modestos.  Esta tendência irá se inverter – depois dos Baby Boomers aposentarem-se no período entre 2020-2025.  Em terceiro lugar, a realocação de folhas de pagamento para setores de serviços nos extremos do espectro de pagamentos também é um fator limitante à medida em que uma grande parte dos novos postos de trabalho é adicionada aos setores de salário muito baixo (por exemplo, hotelaria e lazer).  Enquanto vemos esta tendência de estabilização, não vemos uma reversão no curto ou longo prazos. 

Em termos de implicações de políticas, o Federal Reserve pode manter-se extremamente cauteloso no aumento das taxas. E, com o persistente baixo crescimento de salários e da produtividade, mesmo que por razões estruturais, a taxa de juros final dos federal funds para este ciclo pode ser na faixa de 1,50% a 1,75%. A política fiscal é uma história diferente. Os gastos com infra-estrutura e investimento em educação poderiam fazer a diferença ao longo do tempo. Infelizmente, as perspectivas para os gastos do governo federal com infra-estrutura enfraqueceram consideravelmente durante o verão, e a Casa Branca , Senado e Câmara dos Representantes, controlados pelos Republicanos, mostram-se mais propensos a cortes no suporte à Educação do que investimentos nela. Então, parece que o crescimento dos salários e da produtividade deve aguardar a aposentadoria da geração Boomer antes de aumentar.


Disclaimer Genérico Agosto 2017

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Sobre o autor

Bluford "Blu" Putnam atua como Diretor Geral e Economista-chefe do CME Group desde maio de 2011. Com mais de 35 anos de experiência na indústria de serviços financeiros e foco em bancos centrais, estudos de investimento e gestão de carteiras, Blu é porta-voz do CME Group sobre condições econômicas globais.

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