Ouro: Risco com Expectativas Reduzidas de Taxa

  • 12 Sep 2017
  • By Erik Norland

Os preços do ouro, prata e platina têm tido recuperação nos últimos seis meses pelo que parece ser a razão principal: investidores perdendo a fé de que o Federal Reserve (Fed) continue a aumentar as taxas de juros no atual ciclo de aperto, como representado pelos Futuros de Fed Funds.  Por exemplo, em meados de março, os Futuros de Fed Funds precificaram que a taxa-alvo do Fed estaria na faixa de 1,75% – 2,00% em dois anos.  Mas, no final de agosto, estas expectativas foram minadas e, agora, o mercado antecipa que a taxa-alvo do Fed seja abaixo de 1,5% em dois anos. (Figura 1).

Figura 1: Queda Pós-Eleições das Expectativas de Taxa de Juros por Futuros de Fed Funds.

Expectativas reduzidas de alta da taxa são uma boa notícia para os metais preciosos. Os investidores consideram os metais como uma reserva de valor que não paga juros. Então, quando as expectativas para a alta da taxa de juros são reduzidas, isso eleva a relativa atratividade de reserva em metais preciosos (PMs, na sigla em inglês para Precious Metals) na comparação com a reserva em dinheiro. A correlação entre as variações dia a dia dos Futuros de Fed Funds, representados como uma taxa de juros (100 menos preço), e as variações dia a dia dos preços do ouro, prata e platina tem se tornado cada vez mais negativa nos últimos anos (Figura 2). Isto indica que a influência dos mercados de taxa de juros dos EUA sobre os metais preciosos aumentou ao longo do tempo.

Figura 2: Correlações entre Variações Diárias dos Fed Funds e dos Metais Preciosos têm se tornado mais Negativas.

Enquanto os investidores de metais preciosos estão, sem dúvida, contentes com seus ganhos recentes, há razões para também estarem, ao mesmo tempo, nervosos se a situação não durar e otimistas se continuar.  Antes de dissertar sobre os riscos de alta e de baixa dos metais preciosos, vale a pena ressaltar que: o recente afrouxamento das expectativas de alta da taxa tem pouco a ver com a situação atual da economia.  PIB, mercado de trabalho e a maioria dos outros indicadores econômicos mostram uma taxa estável de expansão e um aumento modesto da inflação.  Mantidas as atuais condições, isso pode servir de argumento para expectativas de mais e não menos altas de taxas.  Além disso, as curvas de rendimentos dos EUA e a maioria das outras (exceto China) permanecem positivamente inclinadas, sugerindo uma baixa probabilidade de uma recessão econômica nos próximos 12 a 24 meses.

As expectativas reduzidas por taxas de juros mais altas parecem estar relacionadas com preocupações políticas. E há várias questões urgentes. Janet Yellen será reconduzida a presidente do Fed? Caso contrário, quem vai substitui-la? Quem será indicado para os outros cargos de decisão de política monetária no comitê do Fed (FOMC, na sigla em inglês para Federal Open Market Committee) e quão agressivos ou pacifistas podem ser? O colapso da reforma do sistema de saúde sinaliza que a reforma tributária e das despesas com infra-estrutura também não serão feitas por bloqueio no Congresso? A Administração de relativamente baixa popularidade e controversa relação com Congresso deixará o Fed continuar a apoiar o crescimento econômico através da política monetária na ausência de um estímulo da política fiscal? Haverá uma paralisação do governo? Nenhuma das respostas a estas perguntas é clara, e esta falta de clareza está pesando nas expectativas sobre o Fed continuar o aumento das taxas.

À medida em que as preocupações sobre a orientação da política monetária dos EUA pesaram sobre as expectativas de taxa de juros e aumentaram os preços dos metais, representam riscos negativos para os metais.  Ainda há uma enorme lacuna entre as expectativas do Fed expressadas em seu 'dot plot' – projeções de taxa pelos membros do FOMC -- e as expectativas do mercado.  Os membros do FOMC, muitos dos quais serão substituídos em breve, parecem pensar que o Fed terá sua taxa de política monetária em 3% até o final da década.  Isto implica em mais sete altas da taxa de juros entre agora e o final de 2019.  Os Futuros de Fed Funds precificam o alvo da taxa do Fed em 1,5% no final da década – que é mais uma alta com uma chance de 50-50 de outra. Raramente foi tão grande a lacuna entre as expectativas do mercado e do "dot plot". 

Se o desemprego continuar a cair, os rendimentos e os gastos do consumidor continuarem crescendo, a habitação continuar em recuperação e o mundo evitar um conflito envolvendo a Coreia do Norte, o risco é que o Fed aumente as taxas muito mais do que o mercado precifica atualmente.  O Fed, provavelmente, não chegará a 3% até o final da década, o que parece ser um pouco de sonho, mas as taxas, certamente, podem chegar a 2%.  Se o Fed ir além de 1 ou 2 altas da taxa que o mercado espera até o final da década, pode representar má notícia para os metais preciosos.  Da mesma forma, a redução do tamanho do balanço maciço do Fed pode não ser útil para os metais preciosos, à medida em que conduz para taxas de juros de médio e longo prazos mais altas. No entanto, se a Administração e o Congresso surpreenderem o mercado e passarem significativa reforma fiscal ou uma lei de gastos com infra-estrutura evitando uma paralisação do governo, também poderia aumentar as expectativas de alta da taxa em detrimento dos metais preciosos.

Por outro lado, ainda há o que ser feito para que as taxas já reduzidas possam cair ainda mais.  As avaliações do mercado acionário estão bastante elevadas e os lucros das empresas já não estão mais crescendo.  Se o mercado acionário corrigir pontualmente, os mercados de taxas de juros podem desde antecipar um ritmo extremamente vagaroso do aperto monetário do Fed até antecipar nenhum aperto do Fed ou mesmo começar a precificar que o Fed poderia reverter o curso e começar a afrouxar a política.  Se isso acontecer, os metais preciosos podem disparar e o ouro pode liderar o caminho desta alta, uma vez que é o metal mais negativamente sensível às taxas de juros.

Uma razão final pela qual os preços de metais preciosos não estão mais altos: a oferta de mineração do ouro e da prata continua a subir, embora lentamente.  Enquanto as mudanças nos Fed Funds dominam o dia a dia de negociação do ouro e da prata, mudanças na oferta de mineração exercem uma forte influência de ano para ano, e a oferta de mineração em 2017 provavelmente registrará um recorde de alta para estes dois metais, o que não é uma boa notícia para o preço.  Além disso, a oferta de mineração pode continuar a crescer.  O ouro pode ter os lucros minados em US$818 por onça (custos operacionais de US$ 630 por onça + US$188 por onça de custos gerais).  A US$1.300 por onça, é uma margem média de 59%.  Custos totais da prata à vista + custo de gasto de capital de produção com média de US$11,38 por onça em 2016.  Com a negociação da prata perto de US$17,50 por onça, isso dá aos mineradores de prata margens operacionais comparáveis às dos produtores de ouro.  A mineração com este lucro pode estimular mais investimentos, resultando em maior crescimento na oferta, o que pode colocar pressão baixista nos preços no longo prazo.

A única exceção é platina.  Os custos da produção da platina, em média, estão em torno de US$ 974 por onça, perto do preço atual da platina.  Em contraste nítido com a oferta de mineração do ouro e da prata, que aumentaram entre 27% e 33% na última década, respectivamente, a oferta de mineração de platina está cerca de 8% mais baixa do que era há uma década.  Infelizmente para a platina, a demanda das indústrias automotiva e eletrônica tem sido suave.  Em 2007, 4.109 toneladas métricas de platina foram usadas para fazer conversores catalíticos nos automóveis, em comparação com 3.286 toneladas métricas em 2016.  No mesmo período, a demanda da indústria eletrônica pela platina encolheu de 397 toneladas métricas para 148, e seu uso no vidro caiu de 431 toneladas métricas para 291.  A indústria do petróleo também tem sido mais frugal na utilização do metal, com a demanda caindo em 20% na última década.  O crescimento em outras áreas, a exemplo de investimentos do varejo, joias e outras aplicações industriais, tem sido insuficiente para compensar a queda na demanda pelas indústrias automotiva, eletrônica, de vidro e petróleo.  Desta maneira, a oferta de mineração não é tão influente na determinação dos preços da platina como é nos preços do ouro e da prata.  

Ponto de Partida:

  • Os mercados de taxa de juros conduzem os mercados de metais preciosos para o maior nível já existente.
  • Os preços dos metais preciosos têm respondido positivamente às expectativas reduzidas de altas pelo Fed.
  • As expectativas reduzidas de alta da taxa mostram ter base nas preocupações políticas e não nos dados econômicos atuais que continuam fortes.
  • Se as preocupações políticas forem resolvidas neste outono, as expectativas de alta da taxa podem reverter para o provável detrimento dos metais preciosos.
  • Se os mercados de ações fizerem a correção e se as preocupações políticas se intensificarem com a paralisação do governo, isso poderia diminuir as expectativas de mais aumentos de taxa, elevando os preços dos metais preciosos. 
  • O crescimento das ofertas de mineração da prata e do ouro deve continuar devido à lucratividade da mineração. 
  • O aumento da oferta de mineração pode limitar o movimento de alta dos preços do ouro e da prata.
  • A demanda fraca por platina pelas indústrias automotiva, eletrônica, petrolífera e de vidro impediu que a oferta de mineração restritiva fosse mais favorável aos preços.

Disclaimer Genérico Agosto 2017

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Sobre o autor

Erik Norland é Diretor Executivo e Economista Sênior do CME Group. Ele é responsável pela elaboração de análises econômicas sobre os mercados financeiros globais, identificando tendências emergentes, avaliando fatores econômicos e projetando seu impacto no CME Group e na estratégia de negócios da empresa e daqueles que negociam em seus diversos mercados. Ele também é um dos porta-vozes do CME Group sobre condições econômicas, financeiras e geopolíticas globais.

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