Europa: Como Mercados Encaram Unidade x Desintegração

  • 17 Oct 2017
  • By Erik Norland

As forças adversárias que defendem a integração contra a desintegração estão atacando a Europa.  Nos últimos dois anos, ambos os lados obtiveram importantes vitórias.  O Brexit britânico, o referendo de independência catalã na Espanha e a entrada do partido nacionalista Alternativa para a Alemanha (AfD, Alternative fur Deutschland) no Parlamento Alemão (Bundestag) foram vitórias para os defensores da menor unidade europeia.  A derrota eleitoral das forças de extrema-direita nos Países Baixos e a vitória de Emmanuel Macron na França foram celebradas por aqueles que defendem o princípio orientador de uma "união cada vez mais estreita". 

Não importa o que se pense sobre o Brexit, as perspectivas de aprofundamento da integração europeia e a legitimidade dos vários movimentos de independência nacional, a visão dos mercados de moeda é inequívoca: eles favorecem fortemente a integração política mais profunda:

  • Quando as pesquisas sobre a saída erroneamente chamaram o referendo do Brexit para os eleitores "Remanescentes", a libra britânica (GBP) fez um rally de 1,45 a 1,50 contra o dólar dos EUA (USD) antes de despencar, primeiro para 1,32 e, depois, para abaixo de 1,18 contra o USD quando a vitória da "Saída" tornou-se aparente.  O euro caiu 3% contra o USD no dia do referendo do Brexit e caiu quase 10% contra o USD em um período de seis meses.
  • O euro fez um rally de 2% contra o USD na semana após os eleitores holandeses terem derrubado as esperanças do Partido da Liberdade (Eurosceptic Party of Freedom) de Geert Wilder.
  • O euro subiu mais de 10% para uma alta de dois-anos-e-meio nas semanas após a vitória de Macron nas eleições presidenciais da França com uma plataforma de defesa da reforma econômica interna e aprofundamento da integração europeia.
  • Os resultados de eleição alemã de setembro pararam este avanço depois que tornaram evidentes que não só o Alternativa para a Alemanha entrou no Parlamento como esperado, mas Angela Merkel teve desempenho abaixo do previsto nas urnas em cerca de 5-6% e teria que criar uma coalizão pesada com os entusiasticamente pró Verdes e com os Democratas Livres, que se opõem à integração econômica.
  • O referendo de independência da Catalunha conduziu à queda de um dia de 1% no euro, compensando ganhos com a vitória de Macron. Noventa por cento dos catalães votaram para deixar a Espanha no referendo realizado no dia 1 de outubro que o Estado espanhol considera ilegal e tentou reprimir com força, deixando cerca de 900 feridos.

Em cada caso, uma vitória das forças da integração levou alta para as moedas europeias, enquanto uma vitória para as forças que defendem menos unidade, seja dentro ou entre nações, torna as moedas mais fracas. 

Além das preocupações políticas existentes, é claro, há muitos outros fatores que determinam a direção das taxas de câmbio do euro-dólar (EURUSD) e da libra-dólar (GBPUSD), incluindo a força econômica relativa da zona do euro, Reino Unido e dos EUA e a direção relativa da política monetária. As recuperações em solidificação na zona euro e no Reino Unido, combinadas com a aparente incapacidade do Congresso dos EUA em passar esperadas reformas econômicas, impulsionaram as moedas europeias e pesaram sobre o dólar em boa parte de 2017.  

O que é notável, tendo em conta as preocupações políticas e a divergência político-monetária no trans-Atlântico, é a falta de preocupação por parte dos operadores de opções.  Até agora, nesta década, a volatilidade implícita nas opções de 90 dias sobre futuros de EURUSD tem sido entre 5% e 18%.  Recentemente, ela tem ocorrido em torno de 7%, perto da extremidade inferior do intervalo.  Da mesma forma, desde 1 de janeiro de 2011, a volatilidade implícita nas opções de GBPUSD de 90 dias tem variado entre 5% e 19% e, recentemente, vem pairando em torno de 8% (Figura 1).

Figura 1:Volatilidade Implícita de Opções perto do Nível mais Baixo do Intervalo Reflete uma Falta de Preocupação.

Dada a natureza instável das políticas dos EUA, Reino Unido e Europa Continental, parece-nos que os mercados de opções estão excepcionalmente otimistas.  Claro, os mercados de opções de EURUSD e GBPUSD estão quase sozinhos na atribuição de preços baixos para a proteção com opções de venda e compra.  Outros pares de moeda como o dólar australiano-dólar dos EUA (AUDUSD), dólar canadense-dólar dos EUA (CADUSD) e o iene japonês-dólar (JPYUSD) também estão perto das mínimas históricas.  Além disso, as opções sobre futuros de índice de ações, títulos do governo e metais preciosos também estão com preços perto das mínimas históricas.

O denominador comum que pode explicar o baixo nível de volatilidade implícita nas opções de quatro classes de ativos é a enorme expansão monetária empreendida pelo Federal Reserve (Fed), Banco Central Europeu (BCE), Banco de Japão e de outros bancos centrais.  A política monetária de afrouxamento gerou enormes quantias de dinheiro e pode estar favorecendo excepcionalmente compradores e vendedores de várias moedas, títulos, ações e metais a transacionar uns com os outros sem movimentos significativos de preços.  

O maior risco nesta situação é o banco central adotar uma política de aperto monetário. O Fed já elevou as taxas quatro vezes em seu atual ciclo e, neste mês, começará a reduzir o tamanho de seu grande balanço.  Além disso, colocou os mercados em aviso para um esperado aumento da taxa em dezembro e mais no próximo ano.  As expectativas do Fed, em particular, permanecem um condutor fundamental da taxa de câmbio do EURUSD (Figura 2).

Figura 2: Futuros de Fed Funds e moedas europeias contra Taxas de Câmbio de USD.

Entretanto, o Banco da Inglaterra está considerando o aumento das taxas pela primeira vez desde 2006, enquanto o BCE contempla reduzir ainda mais o ritmo das suas compras de ativos.  Nenhum desses fatores, necessariamente, irá criar uma explosão de volatilidade no curto prazo.  Dito isto, questões que os mercados têm desprezado, como o progresso (ou falta dele) nas negociações do Brexit, o movimento de independência da Catalunha, tentativa de Merkel de construir uma coalizão, a situação na península coreana e a situação no Congresso dos Estados Unidos têm o potencial para gerar reações de mercado cada vez mais fortes.  

No passado, a volatilidade do mercado de ações manteve os movimentos nas taxas do Fed em 12-24 meses.  Dada a tendência de volatilidade que ocorre após uma política de aperto monetário no período de 1 a 2 anos, não será surpresa que moedas e outros mercados mostrem pouca resposta aos recentes desenvolvimentos até agora na Europa e em outros lugares.  Afinal, o Fed só vem apertando pra valer nos últimos nove meses.  Presumivelmente, os impactos mais fortes de drenagem de liquidez do sistema não vão ser sentidos até 2018, na melhor das hipóteses.  Mesmo no curto prazo, no entanto, ainda existem motivos de preocupação pelos mercados de opções sobre moeda Europeia estarem demasiado complacentes:

  • O progresso das negociações do Brexit continua a ser um grande ponto de interrogação dada a fragilidade da maioria governante da primeira-ministra Theresa May.  Um 'Brexit suave' poderia disparar a GBP.  Um 'Brexit duro', ou uma turbulência política no Reino Unido, poderia derrubar a GBP de volta em direção às baixas do pós-referendo.
  • A situação catalã pode tornar-se cada vez mais volátil, com a possibilidade do governo da Catalunha declarar a independência contra os desejos do primeiro-ministro e do rei da Espanha.
  • Uma coalizão CDU/CSU/FDP/Green na Alemanha poderia ser pesada e instável, além de dificultar os esforços de Merkel e Macron para uma integração europeia mais profunda.
  • A Itália pode realizar eleições em breve que poderiam atrapalhar ainda mais a Europa.
  • A popularidade de Macron caiu abaixo de 40%, enquanto ele tenta decretar reformas-chave e pressiona para o aprofundamento da integração europeia.
  • O eventual afrouxamento do BCE em seu programa de compra de ativos também pode levar mercados a um caminho selvagem, especialmente se o banco central já não for visto como disposto ou capaz de ajudar nas dívidas da Espanha e da Itália.
  • As transições da presidente do FED, Janet Yellen, e do presidente do BCE, Mario Draghi, para novos líderes também poderiam criar volatilidade superior a que os mercados de opções precificaram. 

Ponto de partida

  • Embora a Europa e os EUA estejam bem em sua expansão econômica, as tensões políticas, desencadeadas pela crise financeira de 2008, permanecem como uma influência nas taxas de câmbio e em outros mercados.
  • As forças competindo por uma integração mais profunda contra a desintegração política continuam a atingir os mercados cambiais.
  • As divergências de política monetária estão mais extremas do que nunca.
  • Os operadores de opções podem ter adormecido para a complacência devido aos anos de política monetária suave.
  • Uma política monetária mais apertada pode criar um mercado altista na volatilidade implícita. 

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Sobre o autor

Erik Norland é Diretor Executivo e Economista Sênior do CME Group. Ele é responsável pela elaboração de análises econômicas sobre os mercados financeiros globais, identificando tendências emergentes, avaliando fatores econômicos e projetando seu impacto no CME Group e na estratégia de negócios da empresa e daqueles que negociam em seus diversos mercados. Ele também é um dos porta-vozes do CME Group sobre condições econômicas, financeiras e geopolíticas globais.

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