Entrevista com Edemir Pinto, CEO, BM&FBOVESPA

20 de setembro de 2012

Edemir Pinto
A ascensão do Brasil no cenário econômico mundial na última década resultou no aumento de investimentos e comércio internacional para a economia do país. A BM&FBOVESPA (BVMF), a principal bolsa de valores do Brasil, é onde muito do crescimento pode ser medido. Seu índice de referência Ibovespa subiu mais de 500 por cento desde 2002. Embora parte desse crescimento tenha diminuído recentemente, há sinais de contínuo interesse pela economia do Brasil e sua principal bolsa de valores. Os participantes do mercado nos Estados Unidos, por exemplo, terão a oportunidade de negociar a partir de outubro contratos futuros iBovespa denominados em dólares, como resultado do acordo de listagem cruzada feito com o CME Group. Edemir Pinto, CEO da BVMF, tem acompanhado a situação mais do que qualquer um. Em uma entrevista recente, perguntamos a ele sobre o crescimento futuro da bolsa e da economia do Brasil.

Em 2008, enquanto os Estados Unidos e a Europa passavam por um crise financeira, a BM&F bateu recordes no mercado de ações. Muitas pessoas viram isso como um dos primeiros sinais claros da ascensão do Brasil na economia global. Quais foram os fatores que levaram àquele aumento no volume de negociações?

O Brasil possui hoje uma economia sólida, um mercado de capitais bem estruturado e regulado e muitas empresas com bons resultados e possibilidades de crescimento. Tudo isso contribui para manter a atratividade do país para os investidores, especialmente para os estrangeiros. Neste contexto, o nosso mercado de capitais aparece como uma das mais importantes fontes de recursos para as empresas e o desenvolvimento da economia brasileira nos próximos anos, apesar da crise.

Este ano, espera-se que o Brasil apresente um crescimento de 1,7 por cento após ter usufruído 7,5 por cento de crescimento há apenas dois anos. Como os mercados de ação podem ajudar o país a voltar àquele nível de crescimento?

A crise contribuiu para uma redução dos investimentos estrangeiros no mercado brasileiro de capitais, inviabilizando o IPO de várias empresas, que aguardam um momento mais favorável. Houve também um reflexo no número de investidores pessoas físicas, que apresentou uma redução temporária. No entanto, vemos grandes projetos futuros, como a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, que vão requerer grandes projetos de investimentos em infraestrutura. A Bolsa e o mercado de capitais como um todo estão à disposição para financiar estes projetos voltados para os dois eventos. Também podemos pensar na Bolsa como alavancagem para projetos de crescimentos de empresas de produtos e serviços voltados para a ascendência da classe C no Brasil. Acreditamos também na vinda de companhias para o Bovespa Mais, segmento que permite a realização de ofertas menores ou somente a listagem, para que a empresa inicie sua exposição ao mercado.

Bill Clinton disse recentemente que ele "apostaria no Brasil" "bet on Brazil first" em comparação a outros países emergentes. Ele citou políticas regulatórias e recursos naturais como as principais razões, mas você está vendo evidência de crescimento renovado no mercado de ações?

Além das riquezas naturais, admiradas por todos que conhecem um pouco de Brasil, somos orgulhosos em dizer que o nosso arcabouço regulatório está entre os mais avançados do mundo. Para a BM&FBOVESPA, há um avanço contínuo, inegável, no desenvolvimento da cultura de governança corporativa no Brasil, cujas bases foram dadas pelos níveis diferenciados de listagem da Bolsa, como o Novo Mercado.

A BM&FBOVESPA é possivelmente mais conhecida por seus índices de referência, mas a sua bolsa negocia uma gama ampla de classes de ativos. Em que classe você prevê o maior potencial de crescimento no futuro próximo?

A demanda por produtos internacionais no mercado doméstico deve crescer nos próximos anos na BM&FBOVESPA. A expectativa é que produtos como os BDRs (Brazilian Depositary Receipts) e os índices de ações internacionais, em especial o acesso ao futuro de S&P500, serão muito procurados por investidores, de varejo e institucional, que buscam oportunidades de diversificação de suas aplicações no mercado internacional, com a facilidade de realizar todo o processo de negociação, liquidação e custódia na BM&FBOVESPA.

Com a severa seca no cinturão de grãos nos Estados Unidos, a agricultura brasileira parece pronta para desempenhar um papel maior nas exportações globais. Você vê isso refletido em seus mercados?

Sim, por meio de dois movimentos. No curto prazo nós observamos que a volatilidade no mercado internacional de grãos se transmitiu para nossos mercados de derivativos de commodities, o que gerou necessidade dos participantes do agronegócio procurarem por instrumentos de proteção com maior intensidade. No que diz respeito ao crescimento da economia nacional como um todo, identificamos que o aumento da participação do Brasil no contexto mundial de commodities agrícolas vem influenciando positivamente o desenvolvimento das empresas do agronegócio, algumas delas listadas na BM&FBOVESPA.

Este ano você anunciou um acordo com o CME Group para negociar futuros S&P 500. Você poderia nos dizer qual é o status atual dessa negociação? E quais são as vantagens desse acordo para os usuários do mercado no Brasil?

Teremos o iBOVESPA, principal indicador do desempenho médio do mercado de ações brasileiro, listado na CME e compensado pela CME Clearing como um contrato futuro denominado em dólares. A BM&FBOVESPA lançará, até o fim do ano, com liquidação em reais, contratos futuros denominados em dólares com base no índice S&P 500, na soja mini listada na CBOT e no petróleo (WTI) listado na Nymex. O índice S&P 500 será fornecido à BM&FBOVESPA por meio do sublicenciamento feito pelo CME Group e pela empresa S&P Indices, uma das principais compiladoras de índices do mundo, sob o licenciamento global exclusivo do CME Group. O acordo de listagem cruzada proporcionará acesso local muito mais simples aos principais produtos internacionais, com pouco ou nenhum investimento extra, possibilitando melhor gestão de risco a custos reduzidos.

Há muita controvérsia sobre a interconexão da economia global. Você vê as parcerias entre as bolsas como a principal maneira pela qual as empresas irão investir e gerenciar risco além das fronteiras?

Não prevemos uma grande consolidação internacional das bolsas, mas sim parcerias estratégicas como a existente entre CME e BVMF.